Nuances

 

Para alguns, parece vantajoso andar pelos extremos. Há um conforto simplista em habitar posições absolutas, onde se dispensa a contínua reflexão. Mas permita-me ensinar algo que talvez lhe soe estranho: a verdade não mora nesses extremos gritantes, quase sempre se esconde nas nuances.

Os extremos são como torres altas: de longe, impressionam, mas lá em cima o ar é rarefeito e a visão distorcida. É fácil pensar que quem grita mais alto tem razão, mas a verdadeira sabedoria prefere o tom sereno da observação cuidadosa. Será que há um pouco de verdade naquilo que se prega do outro lado?

A nuance é a ponte que liga aparentes opostos. Ela nos convida a perceber que justiça sem compaixão vira tirania, e liberdade sem responsabilidade se transforma em caos. É a arte de reconhecer que duas ideias aparentemente contraditórias podem carregar, cada uma, pedaços de uma mesma verdade. Note, não significa que as ideias são igualmente verdade, não é relativismo isso. Há sim uma só verdade, mas partes dela são encontradas em ambos lados.

Também não estou dizendo que o meio termo é sempre correto — isso seria outro extremo disfarçado. Estou sugerindo é preciso paciência para enxergar os contornos finos e contraditórios da realidade, já que todo mundo tem viés, todo mentor, todo professor, todo líder tem uma vantagem ao distorcer um fato, cuja distorção levará suas multidões para o lado dele.

Se você se mantiver apenas no calor de um lado, verá apenas metade da paisagem. Mas ao atravessar a ponte das nuances, começa a perceber que o mundo não é feito de paredes opostas, mas de teias complexas de significados.

Então, quando o mundo lhe exigir que escolha entre dois extremos, respire fundo. Pergunte-se: o que não estou vendo? Onde há beleza nos detalhes que escapam aos olhos apressados? A vida — e a verdade — se revelam para aqueles que têm a ousadia de caminhar pelos espaços que a maioria não vê.

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